sábado, 19 de março de 2016

Em dois anos, Lava Jato recuperou R$ 3 bilhões e abalou estrutura política

A Lava Jato completa dois anos tendo assumido proporção que ninguém podia prever, quando começou com a prisão do doleiro Alberto Youssef. As investigações revelaram um esquema que já gerou a recuperação de R$ 3 bilhões de reais, chegou aos maiores empresários da construção pesada e a políticos do PT, PSDB e PMDB. O seu auge, no entanto, acontece em momento de extrema tensão política no país.
 
Nesta quarta-feira (16), foi liberado pela Justiça uma interceptação na qual a Operação Lava Jato indica tentativa de atrapalhar as investigações envolvendo a presidente Dilma Rousseff e o ato de nomeação de Lula como ministro da Casa Civil.
 
A presidente nega e aponta, na sua visão, violação da Constituição na liberação do áudio pelo juiz Sérgio Moro, responsável pelas ações penais da Lava Jato na primeira instância. 
 
Isso provocou um debate entre políticos e juristas no qual alguns dizem que a conversa não poderia ter sido divulgada, já que uma das pessoas era a presidente da República. O juiz Moro disse que ela foi gravada fortuitamente e lembrou que, no caso Watergate, a Suprema Corte americana considerou legal divulgar o áudio do Salão Oval da Casa Branca.  
 
A dimensão da operação surpreende hoje até os investigadores. De fato, eles não tinham noção de que o fio de novelo puxado os levasse tão longe, nas entranhas do poder público, mesmo que desde o início a operação tivesse potencial de estrago político.
 
Entre as 180 pessoas acusadas estão dois presidentes das casas do Congresso, um deles já réu: o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Entre os investigados, está o ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, empossado ministro numa movimentação política na qual se suspeita que tenha sido realizada para protegê-lo de Moro. Há acusações conta o principal líder da oposição, Aécio Neves (PSDB-MG).
 
Como parte do resultado dessa operação, na próxima semana será entregue ao Congresso um projeto de lei de iniciativa popular para a aprovação de dez medidas contra a corrupção. O projeto é assinado por um milhão e seiscentas mil pessoas. As ideias foram defendidas pelo Ministério Público Federal, mas voluntários no país todo colheram as assinaturas.
 
A Lava Jato levou o país a uma sucessão de sustos, porque os fatos que pareciam impossíveis de acontecer no Brasil foram realizados, como a prisão dos maiores empreiteiros do país, responsáveis pelas grandes obras do governo, e também de ex-diretores da Petrobras. 
 
A devolução de dinheiro de corruptos e pagamento de empresas em acordos de leniência também tem dimensão inédita. Ao todo, quase R$ 3 bilhões estão sendo devolvidos ao país. A outra operação que mais devolveu dinheiro de corrupção havia conseguido R$ 70 milhões. 
 
Os procuradores, policiais federais e o juiz que cuida do assunto na primeira instância se inspiram declaradamente na Operação Mãos Limpas, que dissecou a corrupção e  sacudiu a Itália vinte anos atrás. 
 
O problema é que, eliminados alguns corruptos, outros apareceram e neste caminho surgiu um político como Silvio Berlusconi. Por isso, agentes públicos trabalham agora sabendo que precisam garantir que não termine em pizza. Na Itália, 40% dos casos terminou sem julgamento.
 
Agora, o ápice da Lava Jato, incluindo um grampo envolvendo a presidente da República, estará sob olhar do procurador-geral Rodrigo Janot, e dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), que já tem em mãos também a bombástica delação do senador Delcídio do Amaral (sem partido-MS), que atinge governo e oposição. Com a palavra, a mais alta Corte do país.

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